Conto escrito em 1996. Na época eu tinha 15 anos. Ele foi premiado em 2º no concurso literário da Academia de Letras de São João da Boa Vista-SP.
T.M.
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CONDENADO AO VIETÑA
Certa tarde, em algum lugar do Sul Norte-Americano, recebo um telegrama cujo remetente é o Exército. Tenho 26 anos, sou casado e possuo uma filha que ainda criança é o motivo de minha felicidade. Mas, nem seu gracioso encanto pode me reanimar, pois, esse telegrama me obriga a tomar uma decisão sem escolha que entristece a todos os meus familiares. Sei que não sou o único e sim um na multidão de jovens soldados que tomam a partir de agora o rumo ao Vietña.
Ao ler esse telegrama, sentado na poltrona em um dia de chuva e relâmpagos, a TV anunciando de última hora os conflitos dessa guerra, minha esposa cai em lágrimas profundas que nem eu posso consolá-la. Fui chamado a ir para a guerra mais sangrenta e odiosa, feita pelos homens sem coração, onde o único objetivo é... matar o inimigo. Isso é o Vietña!
Calado ao silêncio da madrugada, interrompido pelo choro das mães desamparadas que ali viam seus filhos com uma trouxa de roupas saírem todos juntos ao aeroporto. Meu pai me consolava enquanto ouvia lá no fundo, baixinho, o livre desabrochar de minha pobre mãe cujo filho esta deixando o lar para ir a uma viagem obrigatória e, muitas vezes, sem volta.
Ao sair de meu lar, onde nasci, cresci e me criei, olho para trás e vejo uma imagem inesquecível: a imagem de uma família unida, que agora começa a rezar para que eu volte são e salvo.
Depois desses momentos de fraternidade, sigo meu destino, onde milhares de soldados também já passaram.
Deixo todos os meus pertences para ir ao confronto com o inimigo. Pela caminhada inesgotável que lotam avenidas de homens responsáveis e dedicados, encontro nesta multidão, um amigo.
Chegando ao aeroporto, todos entram em uma fila interminável para apresentarem a carteira militar e pegar sua farda de soldado guerrilheiro. Por toda parte que olho no aeroporto vejo soldados de prontidão, armados e em posição de sentido, olhos fixos e profundos, orgulhando-se do que fazem pela sua pátria.
Ao pegar minha pesada farda, meu amigo e eu entramos no caça da força aérea para a decolagem rumo ao inferno... o Vietña.
Todos apertados no avião, vestindo-se para a guerra. Nisso, da cabine do piloto, sai o Sargento, sua face nem se mexia, só seus olhos, marcando o rosto de cada soldado ali presente, um gesto de frieza para com os mesmos. Ao ver todos fardados e prontos para a batalha, o Sargento bate continência e todos responde com o mesmo gesto, em pé, firmes.
Examinando todos com cautela, o Sargento encara um a um, bem nos olhos, como se quisesse dizer: matem ou morram.
Ao fim das últimas instruções pelo Sargento, o co-piloto avisa que chegamos ao lugar, logo o pânico aumenta, ouço tiros, explosões e só vejo mata. O avião é alvo fácil para os atiradores de elite e por isso temos que ser rápidos em colocar o pára-quedas e saltar ao combate. Todos saltam de uma vez, uma equipe monta o forte, nossa base provisória em terra.
Ao raiar do sol, os soldados ainda acordados, pegam suas armas, munições e apetrechos e com o rosto todo pintado em camuflagem saem para a guerra. Estou com meu amigo, aqui, escondido entre as árvores, no silêncio, longe dos tiros e mais tiros de metralhadora que incansavelmente não param.
Fim do dia, já matamos muitos e meu amigo foi atingido no antebraço, corremos ao forte, onde foi medicado e voltamos para lá. No meio da mata só vejo gente morta caída ao chão, muitos mutilados e todos cobertos por muito sangue.
São altas horas da madrugada, hoje é um dia, pois de tanta guerra já não sabemos que dia estamos.
Os suprimentos estão acabando e nosso regime são insetos, a dura sobrevivência nesta guerra.
Já faz muitos dias que estamos aqui, ou até meses. Pelo nosso descuido, um vietñamita vem onde estamos e meu amigo é metralhado pelas costas, seu grito nunca será esquecido, pois não se compara ao da metralhadora do inimigo. Uma cena marcante de ódio e sofrimento. Com minhas mãos, solto do fuzil e ataco o assassino espancando-o com todo meu ódio e com toda minha força quebro seu pescoço. Ele despenca e cai morto entre as folhagens com os olhos sobressaltados. Então penso: “Isso foi merecido, por tirado a vida de meu amigo!”. Ao me virar vejo-me diante da pessoa que só me trouxe felicidade e orgulho e vendo-o todo ensangüentado em seus últimos suspiros, pego-o, levantando sua cabeça, com sua mão no peito, respirando rápido e todo o corpo perfurado de balas, ele falece olhando para mim. Deixo seu corpo ali no chão e com minhas mão embebidas com seu sangue, rezo por ele.
Depois de vários dias, com muitos soldados mortos e eu felizmente vivo (ou será infelizmente?), o Sargento entra no forte onde estão o restante dos soldados, caminhando firmemente e com a cabeça erguida, diz as três melhores palavras de nossas vidas: “Vamos para casa”. Era 27 de janeiro de 1973. Então penso que só mais alguns dias e meu amigo também regressaria ao lar.
Foi uma festa, nós todos embarcamos imediatamente e saímos bem rápido de lá. A guerra do Vietña tinha se acabado.
Chegando ao aeroporto, muitos familiares aguardavam anciosos o regresso de seus tão amados filhos, maridos, e se chocam com a cena que vêem. São restos de homens que descem do avião, homens corajosos e considerados até heróis, mas apenas homens. Minha mãe, já com o coração apertado, cai em lágrimas ao me ver aparecer no alto da escada. Não sou o mesmo que partiu, mas para ela não importa, o que realmente importa é que voltei nem mesmo importa que eu esteja caminhando com auxilio de muletas pois estou sem minha perna esquerda. Mas o pior de tudo isso é saber que não foi só isso que perdi.
Chego junto de minha família, minha esposa me abraça e me beija, emudecida e chorando de alegria, dá graças que eu tenha voltado, meu pai com orgulho e com os olhos cheio de lágrimas não aguenta e também chora. Minha filha me abraça. Então penso: “Eis uma grande razão para que eu viva”.
Volto a minha vida normal e depois de três dias completo 27 anos. Minha família prepara uma enorme festa de aniversário com todos os parentes reunidos, e fiz questão de um minuto de silêncio nesta festa, para todos os jovens que não tiveram a mesma sorte que a minha: a de regressar aos seus lares.
Houston, 06 de fevereiro de 1973
Mickel Cohnor
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
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